A única vez que pedi para tirar foto com um artista foi com Erasmo Carlos – que não é apenas um artista, é um monumento da cultura nacional, evidentemente. Fiquei tão afoito em revelar a imagem que não reparei que o rolo de filme não havia terminado. Abri a câmera e velei a foto. Castigo. Durante a entrevista com Erasmo, o gênio, o monumento agravou o tom de voz de um papo delicioso para se queixar de haver ouvido da direção de sua então gravadora, a Abril Music, a sugestão de fazer um “projeto de música country”. O Tremendão respondeu: “Mas eu gravo discos, bicho, não projetos!”
Erasmo fez o disco que quis, o belo Pra falar de amor, mas não entregou o que a gravadora queria. E essa era outra praga na virada dos anos 90 para os anos 2000: os projetos, nascidos na mesa do departamento de marketing, com pretensões artísticas que variavam de um Acústico MTV de Jorge Ben com a reformada banda Admiral Jorge V a um disco de covers dos Titãs feito para cumprir o contrato aberto pelo Acústico, passando por tributos, discos natalinos, discos de duetos e tudo o que as sempre férteis mentes marketeiras pudessem conceber.
Porque os projetos vigentes até então contavam com nomes consagrados, em shows ricamente produzidos, com arranjadores de renome – ainda que todos estivessem imbuídos do clássico espírito de caçar alguns níqueis. O que ajudava a rentabilizar O Som do Barzinho era contar com um artista virtualmente desconhecido, com profissionalismo e eficiência comprovados, mas sem grandes exigências ou dilemas artísticos, cuja produção se restringia a um violão, um banquinho e um copo d’água mineral sem gás. Ainda que vendesse pouco, asseguraria a rentabilidade do projeto. Mas vendeu 600 mil cópias, um sucesso que rendeu mais três volumes no mesmo modelo do primeiro: arranjos “de barzinho”, acústicos e paisagísticos, para clássicos da música popular brasileira – ou, ao menos, aquela MPB que toca na Nova FM, esteticamente congelada em 1983.
O alinhamento com o gosto do público-alvo foi outra bola dentro. Aquela era uma época em que toda a indústria decidiu assumir, em escala, o que já acontecia na esfera particular. O público já misturava refrigerante de cola com limão havia eras e eras – mas foi apenas no ano 2000 que a Pepsi criou a Pepsi Twist. No caso da música brasileira, era no barzinho onde ela florescia, criava mitos, celebrizava arranjos, repercutia (coloque as aspas a caneta, se quiser). João Augusto simplesmente oficializou a relação do público de MPB com o lugar de onde ele veio.
Mas apenas o sucesso não faria de O Som do Barzinho o maior álbum de MPB dos últimos 20 anos. Entra na conta a influência que ele causou.
De repente, toda a MPB (ou, ao menos, aquela MPB que toca na Nova FM etc.) virou “do barzinho”. Vieram Ana Carolina, Seu Jorge, Maria Gadú, Vanessa da Mata. Na verdade, os sinais já estavam no ar, desde o surgimento de Jorge Vercillo, “Sozinho” de Caetano Veloso e as versões de sucessos da jovem guarda em versão voz-e-violão de Adriana Calcanhotto.
Enquanto os cantores de barzinho superlotavam o mercado, sorte mesmo deu Ivete Sangalo que saiu da Banda Eva com um papo estranho de ser “a nova Elis Regina”, cantando suave e elegantemente, meio metida a R&B e a gravar Herbert Vianna, mas que viu sua “Festa” virar hino da seleção brasileira na Copa de 2002. Enquanto todo mundo se embarzinhava, Ivete nadou de braçada em uma raia em que só encontrou par com a invenção da carreira solo de Claudia Leitte, seis anos depois.
Ou seja: de diretores de marketing a artistas iniciantes, de radialistas a medalhões, um verdadeiro exército se formou para manter a MPB petrificada, revolvendo seus velhos cânones, respirando o ar de São Tomé das Letras e sonorizando um cenário de praça de cidade do interior, em domingos de verão em que o máximo que o calor permite fazer é sentar na calçada e olhar o movimento que não existe. Eis a MPB, anos 2000.
PS: O Som do Barzinho também teve influência “internacional”: alguns meses depois de lançado, com seu sucesso estabelecido, chegou às lojas, pela Sony Music, Versão acústica, com grandes sucessos do pop-rock internacional nos arranjos voz-e-violão de Emmerson Nogueira. That’s the little bar’s sound.
Fonte: Msn/Blog do Ricardo Alexandre

